O lado negro dos wireframes: criando profissionais de um método só

 

 

por Fabrício Teixeira

wireframes

Já falamos por aqui sobre os vários métodos de UX e a função de cada um deles dentro do projeto. Alguns são relacionados a pesquisa com usuário, outros mais dirigidos a estratégia e planejamento de produto, outros mais focados em design – e assim por diante, um para cada etapa do projeto.

Ainda assim, UX Designers são lembrados primariamente pelos bons e velhos wireframes. Não adianta. É a marca registrada do UX Designer e, no fim das contas, é o bottomline do que a gente faz: a forma mais reduzida e tangível de materializar tudo aquilo que aprendemos à medida em que estudamos o usuário ou definimos a estratégia do produto.

Mas será que estamos aprendendo tudo o que devemos saber antes de colocar a mão na massa e produzir esses tais wireframes?

O mercado viciado em wireframes

Conversando com amigos freelancers, ouço com frequência a mesma história: clientes que só resolvem envolver o profissional de UX na jogada de última hora, quando o prazo está apertado e o diretor de arte precisa começar o layout no dia seguinte.

“Oi, meu nome é Fulana e eu estou tocando um projeto para a agência X. Você faz freelas, né? Você consegue fazer uma estimativa e orçamento e me devolver ainda hoje? O ideal é você entregar os wireframes prontos pra gente até amanhã, porque o Diretor de Arte já está parado esperando pra começar.”

Soa familiar?

Apesar de estereotipada, a situação acima é mais comum do que parece, e na minha opinião é sintoma de um problema anterior: UX Design ainda é visto por muita gente como um elemento “adicional” no projeto. Normalmente com um dos seguintes objetivos:

  • Facilitar a vida e reduzir o tempo de trabalho do Diretor de Arte;
  • Evitar inconsistências ou problemas que venham a surgir por conta delas;

Mas essa visão do UX “band-aid” pode ser prejudicial tanto para o mercado quanto para os profissionais da área.

Como isso afeta o profissional de UX

Você recebe aquele email da gerente de projetos te pedindo o orçamento até o fim do dia, hesita um pouco, mas acaba aceitando o trabalho. É bom fazer um pouco de trabalho braçal, você pensa, acaba dando uma relaxada. Você se compromete com o prazo que eles precisam e escarra um wireframe em 8 horas, com tudo o que sua cabeça conseguiu colocar no papel naquele período.

A gerente de projetos fica super contente com o resultado e com o seu comprometimento com o prazo apertado.

Na próxima vez que ela precisar de UX num projeto, sabe que pode contar com wireframes de um dia pro outro. “Oito horas são suficientes”, ela pensa. E acredita que tudo vai e deve continuar saindo da cabeça do UX Designer e de nenhum outro lugar. “Inteligentes esses caras de UX né?”

E você, amigo, acabou de vender seu peixe por um décimo do valor que ele vale. Não valor financeiro. Valor estratégico. Que obviamente não cai na sua conta-corrente no fim do mês, é verdade, mas pesa no seu trabalho a longo prazo.

Como isso afeta o mercado

Olhar para wireframes e entender o que eles comunicam é relativamente fácil, já que é um processo bastante parecido ao que você faz todo dia enquanto usuário de interfaces, sites e apps. Nos últimos anos, clientes e gestores de projetos foram se acostumando a olharem para wireframes e entenderem como a interface irá funcionar, mesmo antes do layout final estar definido.

Mas obviamente não se pode dizer a mesma coisa de fluxos, sitemaps, ecossistemas e outros entregáveis de UX que fazem a cabeça dessas mesmas pessoas fritar. O que é, brincadeiras à parte, um problema mais grave do que parece.

Clientes, gerentes de projeto e diretores de arte não são usuários. Eles precisam ser mais inteligentes, ter maior poder de abstração e um pensamento mais estratégico do que as pessoas para as quais o produto é desenhado. Afinal, esses caras são os tomadores de decisão do nosso mercado. São eles que decidem sobre produtos que entram ou não entram no ar todos os dias. E, como decisores, influenciam diretamente em como o mercado se transforma e para onde ele ruma.

Talvez seja a hora desses mesmos caras (para quem você entrega os seus wireframes) começarem a olhar para user flows, ecossistemas, personas, relatório de testes de usabilidade (e todos os outros métodos e entregáveis de UX) com mais familiaridade e frequência – para conseguir elevar o nível das discussões e tomar decisões mais bem informadas sobre um determinado problema, olhando-o sob óticas distintas.

Afinal, se os líderes da nossa indústria (de Design Digital) não conhecem e estimulam o uso de métodos de design centrados no usuário no decorrer dos projetos, isso pode ser um sinal de que algo vai mal por ali.

O valor estratégico de UX

À medida em que o mercado vai ficando mais maduro, é natural que os profissionais comecem a adquirir funções um pouco mais estratégicas do que as quais foram originalmente designados para cumprir.

estrategia

É um processo natural. Diretores de arte que trabalham com design digital há alguns anos já começam a pensar nas interações e na estrutura das telas com a mesma facilidade que um UX Designer o faria. Redatores começam a pensar na estratégia de conteúdo das marcas, programadores a pensar na estratégia de desenvolvimento, servidores e linguagem. O caminho natural de um mercado que vem amadurecendo bastante nos últimos anos.

Mas da mesma forma que as outras áreas começam a dar um passo em direção ao lado estratégico dos projetos, o UX Designer pode (e deve) começar a fazer o mesmo. Usar novas ferramentas, aumentar o alcance do seu trabalho, coletar inputs de fontes diferentes, trazer referências novas para o time e participar de decisões com clientes e outros stakeholders são iniciativas que não apenas ajudam o UX Designer a se manter relevante dentro da estrutura do time, mas também a tornar os projetos (e o mercado) mais inteligentes.

Projetos de design são, essencialmente, uma série de decisões tomadas individualmente e em conjunto no decorrer de um período. Os fatores que mais influenciam a qualidade de um projeto incluem o quão bem informadas são essas decisões e o quão variadas são as fontes de informações que levaram a elas. E o UX Designer é um dos profissionais que possui as melhores ferramentas para contribuir nesse aspecto. É o cara que sabe conversar com os usuários, sabe analisar métricas, sabe planejar funcionalidades e projetar sistemas complexos de maneira simples. As pessoas só precisam saber disso.

Saindo da mesmice

Conquistar espaço para entregar mais do que somente wireframes é um processo demorado e cíclico.

Você precisa mostrar que está disposto a entregar mais do que aquilo que lhe foi pedido, mesmo que isso signifique não mexer no prazo e na data de entrega do trabalho.

Mas não adianta esperar que as pessoas peçam mais do que wireframes. Você não vai, de um dia para o outro, conseguir verba e prazo para realizar pesquisas com usuários (para citar um exemplo). Mas pode começar a introduzir a ideia e a vender o peixe do que UX é capaz de fazer pela qualidade do projeto.

Somente quando começa a adicionar métodos mais elaborados no seu processo e compartilhar o resultado com o restante do time é que eles passam a observar o valor naquilo que você faz. E então é comum que esses mesmos líderes e gestores comecem a pensar: “putz, esse cara trouxe uma nova forma de visualizar o nosso fluxo de cadastro” ou “olha só que interessante, esse cara olhou para as métricas de acesso na hora de tomar decisões de design”.

Quer mais alguns exemplos de como colocar isso em prática?

  • Experimente começar seu próximo PPT com um ecossistemaque mostra de onde o usuário está vindo e para onde vai depois de passar por aquele site ou aplicativo. Antes de entregar o wireframe, experimente se distanciar um pouco dos pixels e começar a introduzir frameworks mais abrangentes sobre o que está sendo criado.
  • Experimente explicar em detalhes cada uma das suas decisões de design (por que você chamou o botão de “Concluir seu cadastro” ao invés do genérico “Enviar”, ou por que você adicionou um box ao lado do formulário que relembra o usuário da compra que está sendo feita).
  • Levante bandeiras quando você percebe que não tem informações suficientes sobre o usuário para tomar uma decisão sobre o design de determinada tela. É nessa hora que o gerente de projetos ou cliente vai começar a entender “o que falta” ou “o que poderia ser feito” para melhorar ainda mais a qualidade do que foi desenhado.
  • Faça pesquisas informais com usuários e introduza citações desses mesmos usuários quando estiver apresentando o trabalho. “Nessa tela aqui eu coloquei esse elemento X porque, conversando com usuários, eles me disseram que preferem…”.

Uma coisa é o trabalho que você consegue fazer hoje, com as ferramentas, prazo e verba que você possui. Outra coisa é o mundo ideal, com métodos completos e verdadeiramente centrados no usuário do começo ao fim. Mas as pessoas precisam saber dessa distância entre uma coisa e outra; precisam entender o que é possível e precisam começar a sonhar com esse mundo ideal junto com você. A melhor pessoa para disseminar essa mensagem é você, e o melhor canal para fazer isso é o seu próprio trabalho.

Mudar hábitos é um processo complicado, ainda mais se você pretende mudar o pensamento de profissionais que passaram vários anos fazendo as coisas de uma determinada forma (como a moça que te mandou aquele email no início do post). Eles estão confortáveis com o processo que já é esperado, e qualquer mudança no status quo pode amedrontar e causar rejeição. Mas quando você pega essa mesma “mudança” e quebra ela em pequenas doses, ela fica muito mais fácil de ser digerida. E depois de digerida, vai ser difícil esses mesmos caras se acostumarem a não ter tudo o que você pode oferecer.

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